AINDA BATO ÀS PORTAS DO MUNDO – por Adão Cruz

AINDA BATO ÀS PORTAS DO MUNDO

por Adão Cruz

 

Pintura de Adão Cruz

 

Sempre bati às portas do mundo e sempre elas se me abriram, mostrando paisagens mais luminosas ou mais escuras, com sol ou com chuva, mais sorridentes ou mais tristes, mais humanas ou mais desumanas, mais sublimes ou mais rasteiras, mas sempre paisagens raiadas de alguma esperança. Hoje em dia, ao bater às portas do mundo, elas não se abrem, ou então se escancaram, permitindo ver uma nudez profunda semeada de monstros. Monstros que se arvoram em senhores do mundo, decapitando tudo de bom que a humanidade sã vem criando ao longo dos séculos e pisoteando todos os valores que a dignidade humana foi erguendo como pilares da justiça, da paz e da harmonia. Quem não entenda o mundo, quem não compreenda a razão das razões, quem não agarre a essência e a substância dos complicados fenómenos com que tem de lidar, quem não saiba o valor da verdade, da humildade, da paz e da justiça, quem não reconheça o mal da presunção, da arrogância e da ganância, quem não aceite a indispensabilidade do bom-senso e do respeito pelos outros, quem não seja capaz de entender a intermutabilidade dentro dos seres humanos e apenas viva para a louca e diabólica sede de dominação não pode reconhecer a pobreza mental do que é feito. Em nome, sabemos lá de quê, cometem-se hoje as maiores barbaridades comunicacionais, políticas, sociais, bélicas e terroristas. Barbaridades que estão se transformando em conduta universal sem sentido, que leva à destruição sistemática do ser humano, de sua racionalidade e capacidade cognitiva, de sua consciência pessoal e plural, de sua dignidade, de seu próprio individualismo e personalidade, intimamente inseparáveis ​​do colectivismo, construtor da soberania dos povos. Barbaridades que levam ao desespero, ao conformismo, ao analfabetismo, à perversão dos conceitos de educação e cultura, ao crime de toda espécie, à ideologia maligna do pensamento hegemónico e ditatorial e à inoperância de toda justiça. Não me venham dizer que eu não sei bater nas portas do mundo, que o meu bater é fraco demais para se ouvir, ou que o meu bater se dá de dentro para fora e não de fora para dentro, quando o mundo vive dentro e fora de portas. Todos esses fenómenos se acentuam quando se desenvolvem políticas humanas doentias de tipo paranóico-monetarista, destinadas a reforçar o poder a qualquer custo, de forma profundamente psicopática, através de absurdos superlucros e do esmagamento da vida da maior parte da humanidade. Ao eleger o inimigo errado, muitos dos actuais pregadores da guerra, grotescamente armados em falsos defensores da paz e da liberdade, são co-responsáveis ​​pelo engrossamento dos exércitos, pela globalização dos conflitos, pelos cruéis genocídios e extermínios, pela multidão de refugiados, oprimidos e condenados da terra. Co-responsáveis ​​no abrir de portas e estender de tapetes às chancelarias do crime organizado, transformam o mundo em campo de concentração. Por mais que preguem e por mais conferências que façam, não anulam o descrédito em que caíram ao pretenderem nos convencer de que as expectativas de paz, liberdade e justiça são possíveis com os diplomáticos apertos de mão aos verdadeiros terroristas do mundo ou com as orações a deus, as quais, pelos vistos, só são ouvidas quando saem da boca dos afortunados e não quando tomam a forma de gemidos dos milhões que morrem às pilhas no deserto do silêncio e da fome ou feitos em pedaços pela chuva das bombas. O mundo selvagem dos poderosos grupos económicos, células de um câncer universal, detêm todo o poder da desinformação e da mentira bem como as portes cerradas ao mundo, sem eco aos desesperados batimentos da humanidade consciente. Esta, a suprema arma da dominação, capaz de moldar, através das mais perversas mentiras a mentalidade de um povo, transformando-o, de forma humilhante, numa sociedade estupidificada, impotente, amorfa e conformada. A despeito de eu ser um entusiasmado admirador da maravilha da evolução neurobiológica do ser humano, diante da desgraça civilizatória a que conduziu, tenho vontade de dizer que o animal humano foi a pior coisa que apareceu no planeta.

 

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